quinta-feira, 10 de março de 2011
Vestido vermelho
Então eles decidiram. Claro que havia medo, mas havia mais presa. Ela o estava esperando, ele se estava esperando. Fazia tempo que não cuidava de si, fazia tempo que não sorria. Evitou durante muito tempo se separar, evitou-se muito tempo. Agora era obrigado a resolver. Ele, ela. Vestiu-se, com o que ficou de herança e foi com seu vestido vermelho para a zona. Todos os dias novos clientes. Via-se neles: infelizes, casados derrotados. E assim achava que iria resgatar aquela felicidade que não sentia há tempos. Vestiu-se com sua tristeza e foi ao bar: amigos reclamando, bebida quente, tudo sem gosto, tudo com gosto de cigarro. Vestiu-se e foi ao velório dela: olhares de culpa, cheiro de suor, clientes medrosos. Pediram um discurso, talvez o irmão bêbado, talvez a mãe tão dopada que nem o viu vestido daquele vermelho, que um dia tinha sido seu presente de noivado para ela. Falou sem parar. Falou dele, dela. Falou dos clientes. Falou tudo que sabia e sentia antes de se jogar daqueles sete metros acreditando que salvaria sua vida. E riu. Riu desesperadamente até que o calassem com o monte de terra. Morreu feliz, diziam.
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